Portugal, o país da "cunha": Até quando vamos aceitar o mérito da conveniência?
Sinto que bati num muro e precisava de desabafar. Sou enfermeiro e, neste momento, estou numa lista de reserva para um hospital. O que me traz aqui não é a espera, mas a podridão do processo.
Já perdi a conta às vezes em que familiares ou conhecidos me ofereceram a famosa "cunha" para passar à frente de outros colegas na lista. Dizem-me que "é assim que as coisas funcionam" e que "se não fores tu, será outro". Recusei sempre. Não me sinto confortável, não é assim que fui educado e não é esse o profissional que quero ser. Mas a verdade é que isto deixa um amargo de boca terrível.
O problema é que este facilitismo não é exclusivo da Saúde. Vemos o mesmo padrão nas Juntas de Freguesia, nas Câmaras Municipais e em quase todas as instâncias do setor público e privado. Começo a acreditar que o povo português sofre de uma hipocrisia crónica: queixamo-nos da corrupção das elites e do "Estado a que isto chegou", mas, ao nível mais básico, somos os primeiros a tentar contornar as regras se isso nos der jeito.
Diz-se que "o povo é quem mais ordena", mas talvez esse seja precisamente o cerne da questão. Se a base está disposta a corromper o sistema por um interesse individual, como podemos esperar que o topo seja diferente?
Lembro-me muitas vezes daquela frase atribuída aos romanos: os lusitanos "não se governam nem se deixam governar". Parece que, séculos depois, continuamos presos neste ciclo de mediocridade onde o mérito é uma nota de rodapé e o "conhecer alguém" é o currículo que realmente conta.
Sou só eu que sinto que estamos a falhar enquanto sociedade, ou já normalizámos isto ao ponto de a honestidade ser vista como parvoíce?