“Acabar com o Volta porque existe um drama social é como fechar os hospitais para acabar com as doenças”
>O especialista em Finanças Internacionais e ex- secretário de Estado Adjunto e da Economia (no governo de Passos Coelho), preside ao conselho de administração da SDR Portugal, deste que esta entidade foi licenciada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e pela Direção Geral da Economia (DGE) para implementar e gerir o controverso sistema Volta.
>Em entrevista ao Expresso, Leonardo Mathias defende que o Volta “beneficia os municípios nas suas metas” e já enviou para reciclagem 44% das garrafas e latas de bebida colocadas nas máquinas e pontos de recolha. A meta europeia é reciclar 90% deste tipo de embalagens até 2029.
>Sobre a polémica com os autarcas manifesta disponibilidade para dialogar com os municípios e encontrar soluções para os problemas detectados. E indica que estão a investigar "internamente" o que aconteceu com os sacos saídos das máquinas e espalhados num terreno em Odivelas, cujas imagens têm passado nas redes sociais
>**A SDR anunciou que desde abril até agora já recolheram 400 milhões de embalagens no sistema Volta. A que percentagem das embalagens colocadas no mercado correspondem estes 400 milhões?**
>Ainda não acabámos o mês e, portanto, não sabemos o que vai ser colocado no mês de setembro. Foram colocadas no mercado entre abril e julho 627.305.118 embalagens e foram recolhidas no Volta 278.268.586, até final de agosto, o que dá uma taxa de 44%. Desde abril até esta segunda-feira foram recolhidos 417 milhões de embalagens de bebidas no total.
>**A necessidade de colocar um sistema de contagem ao minuto das máquinas Volta para tornar o sistema mais transparente deveu-se a toda esta controvérsia levantada pelos municípios?**
>**Os municípios dizem que têm mais serviços acumulados junto dos equipamentos e custos acrescidos. Conseguem medir se isso é real? E admitem mecanismos de compensação financeira devido ao lixo espalhado?**
>A lei é bastante clara. Os municípios que entendessem fazer a sua recolha eram livres de o fazer ao abrigo do respetivo artigo e de um caderno de encargos. Na altura mostraram disponibilidade a Maia, o Porto e Mafra. Só a Maia aderiu. O segundo ponto é que o investimento nos centros de contagem e triagem, na recolha e logística, na comunicação e nos sistemas informáticos foi exclusivamente assegurado pela indústria, através da Associação SDR Portugal, com dinheiros privados.
>O sistema Volta beneficia os municípios nas suas metas. As embalagens contam para as metas de recolha dos municípios, contribuem para melhorar os seus resultados e os municípios não têm de suportar este circuito logístico. Podem concentrar recursos noutros fluxos de resíduos.
>Em Lisboa já se recolheram mais de 25 milhões de embalagens Volta, e 110 milhões na área metropolitana, o que representa mais ou menos 25% do país. E a área metropolitana do Porto recolheu 68 milhões, o que corresponde a 16% do total do país, dos quais 13 milhões no Porto.
>**Mas nem a Maia, que participa diretamente no sistema, sabe de que forma o Volta reforça as taxas de reciclagem do município. Onde é que essa informação está a chegar?**
>As obrigações de prestação de informação são definidas pela Agência Portuguesa do Ambiente e pela Direção-Geral da Economia. Estamos constantemente a enviar informação para a APA no âmbito das obrigações da nossa licença, que exige que, no princípio de janeiro de 2027, seja feito o cálculo de todas as embalagens recolhidas. A DGE também exige informação até março. Temos essa informação toda. Se os municípios entenderem que precisam dessa informação, achamos legítimo, e basta que a APA defina um mecanismo para a disponibilizar.
>**Como reage ao pedido da Ministra do Ambiente para se articularem com os municípios e “corrigir problemas de limpeza urbana”?**
>A SDR Portugal não substitui os municípios na responsabilidade pela limpeza do espaço público, nem pode intervir diretamente na limpeza ou na colocação de mobiliário urbano. É necessária a articulação com os municípios para a implementação de soluções como os Quiosques Volta, que queremos instalar desde o início deste processo, ainda em 2025, dos quais se encontram instalados 8 dos 50 previstos.
>A SDR Portugal, a par deste investimento nos Quiosques, que vai aliviar significativamente os constrangimentos de limpeza especialmente em centros urbanos, será chamada a compensar financeiramente os municípios, nos termos legalmente previstos e em resultado de estudos efetuados para o efeito, naquilo que respeite aos custos de limpeza urbana imputáveis às embalagens abrangidas pela volta.
>**Entidades como a ZERO ou presidentes de junta de freguesia do município de Lisboa, contactados pelo Expresso, consideram que muitos dos problemas de lixo em Lisboa são anteriores ao Volta. É também a sua opinião?**
>Sim. O SDR não é a origem dos problemas sociais em Lisboa. Acabar com a Volta porque existe um drama social é como fechar os hospitais para acabar com as doenças. Ou fechar o Banco Alimentar porque as filas à porta evidenciam um drama social. O problema não desaparece. Temos de parar de confundir a manifestação da pobreza com a causa da pobreza. A Volta não causou drama social, mas tornou as falhas sociais visíveis. Indigno é dormir na rua. Indigno não é a Volta.
>**A associação SDR poderá ajudar os municípios a financiar papeleiras adaptadas para reduzir os impactos de lixo no chão atribuídos aos catadores ou recoletores de garrafas com símbolo Volta?**
>Estamos totalmente disponíveis https://expresso.pt/sociedade/2026-09-30-ministra-do-ambiente-da-duas-semanas-ao-volta-para-travar-lixo-nas-ruas-5ed6fe5a para ajudar em soluções. Analisámos sete cidades europeias em cinco países e verificámos que o fenómeno não é exclusivo de Portugal. A maioria dos países procurou reduzir impactos, não proibir a recolha feita na rua. Estamos a trabalhar de perto com algumas câmaras para avançar com medidas como a instalação de mecanismos junto das papeleiras que ajudam a colocar as embalagens do lado de fora dos caixotes, semelhantes ao que existe na Alemanha, por exemplo.
>**E essa experiência de outros países não deveria ter sido acautelada logo no início do sistema em Portugal?**
>Está a pedir-me para antecipar um fenómeno social que sabíamos que existia, mas não sabíamos onde se iria manifestar. Em países como a Noruega ou como a Alemanha, não se estigmatiza. Estes países desenvolvem medidas não só de inovação social, mas também de integração comunitária, com uma melhor visão da ação social. As pessoas vulneráveis devem ser apoiadas e incentivadas.
>**Há novos utilizadores que estão a fazer a separação destas embalagens para colocar nas máquinas, ou as embalagens estão apenas a ser desviadas dos ecopontos?**
>Sem dúvida nenhuma que há novos utilizadores. Os dados que temos mostram que mais de 94% da população conhece o sistema, 84% já o utilizou e volta a utilizá-lo e 70% considera que o vai utilizar. A APA publicou recentemente dados que apontam para uma recolha superior em 28% do plástico em Portugal, nestes primeiros seis meses. Isto é bom para Portugal como um todo.
>**Conseguiram perceber o que aconteceu no caso dos sacos saídos das máquinas Volta encontrados espalhados em terrenos na AML, o último dos quais em Odivelas, divulgado nas redes sociais?**
>Em seis meses tivemos dois casos: Camarate e Odivelas. Em Odivelas foram encontrados 20 sacos, com cerca de 12 mil embalagens e não sabemos se estas embalagens eram 100% de Odivelas. Estamos a falar de 0,24% do total recolhido neste município, que corresponde a cinco milhões de embalagens, até à segunda-feira passada. O que sabemos \sobre os sacos espalhados\] é que houve uma fraude, um roubo. Quem perde com isto somos nós, porque esses sacos não foram diretamente para os centros de contagem e triagem, mas em menos de 24 horas fomos buscá-los e colocá-los lá.
>**Então, alguém “assaltou” ou desviou um veículo de transporte das embalagens retiradas de uma máquina Volta pensando que teria milhares de garrafas ou latas em condições para recuperarem os 10 cêntimos e ao perceberem que estavam espalmadas e não seriam reembolsadas largaram os sacos?**
>É uma das hipóteses.
>**Isto está a ser investigado pela polícia?**
>Não. É uma investigação interna. Estamos a rastrear de onde vieram os sacos, de onde vieram as garrafas, e como foram parar ali.
>**Que mensagem tem para os municípios que continuam a ser críticos do sistema?**
>**Poderão financiar esse tipo de projetos piloto?**
>Queremos intensificar a infraestrutura de recolha. Temos vindo a investir na rede obrigatória, nos quiosques (como já referi) que têm capacidade para receber contentores que debitam 120 máquinas por minuto e que são dirigidos essencialmente ao canal de pequeno comércio e de restauração. E estamos a trabalhar na rede voluntária, junto de entidades como a ANA Aeroportos, para ter um sistema de recolha Volta nos aeroportos.
>**Só oito municípios aderiram ao projeto dos quiosques. Isso deve-se a desconfiança do sistema?**
>Não sabemos. Infelizmente, só temos oito municípios com quiosques em funcionamento (Albufeira, Almada, Barcelos, Cascais, Funchal, Ponta Delgada, Portimão, Vila Nova de Famalicão) e mais quatro contratados (Mafra, Oeiras, Aveiro, Vila do Conde). Estamos totalmente disponíveis para trabalhar com mais. Para um restaurante ou um hotel é muito mais prático ir a um destes quiosques do que estar na fila da máquina Volta de um supermercado. Um exemplo de sucesso tem sido Albufeira.
>**Os montantes que recebem do sistema servem para financiar este tipo de investimentos?**
>São investimentos que nós próprios fazemos. Não temos lucros. A equação é: custos iguais aos depósitos não reclamados, mais prestações financeiras, mais venda dos materiais. Isto tem de dar zero, porque somos uma associação sem fins lucrativos.